Paris Jackson lança "The Breeze" e "Just me and You"
Paris Jackson lançou hoje (29) as músicas “The Breeze” e “Just Me and You”. Ambas fazem referência ao pai, Michael Jackson, e chegam às plataformas no dia em que ele completaria 68 anos.
Ao anunciar o single duplo no Instagram, Paris escreveu: “Não é uma homenagem. Não é uma celebração em memória de alguém. Não é nenhum tipo de manifestação. É uma carta. É um poema em forma de som. É a minha experiência sincera — com o amor, a perda e as relações parassociais em contraste com uma relação pessoal. ‘The Breeze’ // ‘Just Me and You’, single duplo, já disponível nas plataformas digitais.”
Para falar sobre as novas músicas, Paris também conversou com Zane Lowe, na qual comentou sobre “The Breeze” e “Just Me and You”. No videocast, ela falou sobre o processo de composição e gravação das faixas, as memórias da infância com o pai, Michael Jackson, e a forma como lida hoje com o luto, a exposição pública e as relações parassociais criadas em torno dele. Paris também explicou algumas referências presentes nas letras e como as duas músicas representam uma maneira mais íntima e pessoal de preservar a relação que teve com o pai, longe das expectativas e interpretações do público.
▶️Assista o vídeo no YouTube ou leia a transcrição da entrevista abaixo.
Entrevistador: Tem sido uma jornada e tanto pra você, e a sua música é muito verdadeira. Foi algo que me tocou bastante quando ouvi as músicas que você estava prestes a lançar, principalmente essas duas. E a gente vai falar sobre o significado delas. Pra mim, fica claro que você encontrou uma forma de chegar a esse equilíbrio sendo o mais verdadeira possível, e a música é o meio que te permite fazer isso.
Paris: Aham.
E: Acho que uma das coisas que a gente sempre acaba, tipo... reparando quando alguém faz muito sucesso como músico e artista, é que a gente fica muito apegado à relação dessa pessoa com a própria música. Mas qual era o papel da música na sua casa? Eu sempre tive essa curiosidade. Porque você cresceu numa casa em que seu pai fez tanto sucesso como artista, entretendo as pessoas e criando músicas que tocaram tanta gente. Como era a relação dele com a música quando você era criança?
P: Tava sempre presente. Eu tive muito contato desde cedo. E, normalmente, quando eu faço esse tipo de entrevista, se me fazem perguntas, eu costumo dar as mesmas respostas de sempre. E é engraçado, porque tem gente que reage tipo: "Nossa, ela revelou um baita segredo!". E, tipo, não, na verdade eu já respondi isso no podcast do Stev-O uns quatro ou cinco anos atrás, e eu, geralmente, falo a mesma coisa. E essa "mesma coisa" normalmente é: eu cresci ouvindo Tchaikovsky, Beethoven, Mozart, cresci com muita música clássica incrível e também com toda a discografia dos Beatles. Mas também tinham umas músicas que eu ouvia e pensava: "Meu Deus, como eu queria ter escrito isso". Podia ser algo tipo If You Could Read My Mind, do Gordon Lightfoot, ou alguma música do The Mamas & the Papas.E tocava de tudo mesmo. Tinha muito Bill Withers. Tinha muito Frank Sinatra. Basicamente alguns dos artistas mais inovadores que existiram. E o que mais me marcava era o efeito que aquelas sonoridades e aquelas letras tinham no nosso sistema nervoso, na mente, no coração. Era esse amor e essa paixão tão profundos pela música... E eu realmente acredito que isso é contagiante.
E: Ah, com certeza.
P: É extremamente contagiante.
E: É mágico. É matemática e é magia. Você sentia isso? Porque quando eu tava crescendo e a minha mãe colocava umas músicas pra tocar, eu percebia que ela notava que eu tava reagindo àquilo. Então ela entrava na onda e tocava até um pouco mais do que ela provavelmente queria, porque ela gostava da ideia de que aquilo tava mudando o meu DNA.
P: Ah, sim. Eu lembro que, quando era criança, estava no Oriente Médio e... lembro de ter ficado apaixonada por “Sugar, Sugar”, porque tinha ouvido a música num filme infantil. [risos] E eu lembro que ele achava muito engraçado o quanto eu gostava daquela música. Ele dizia: “É, é uma música boa.” Aí ele comprou o CD pra mim, e eu podia ficar ouvindo no meu aparelhinho. E tinha muito esse incentivo de: “Ah, você gostou disso? Então toma, aqui tem mais". Sabe? Era como se ele fosse alimentando esse interesse. E eu lembro de, sabe, uns testezinhos aqui e ali. E isso é uma coisa que eu nunca contei muito... da gente estar em algum lugar, tipo num hotel, e ele me testar pra ver se eu conseguia reproduzir a nota que ele fazia.
E: Caramba.
P: E quando eu conseguia, ele dava um sorriso, e eu ficava tipo: "Ah, acertei!". Sabe como é, tipo... todo mundo quer a aprovação dos pais, mas só de acertar já era uma sensação meio "beleza, consegui", sabe? E, hum... é, eu não aprendi a harmonizar tão novinha assim, mas aprendi a acertar o tom na maioria das vezes.
E: É... e também é uma lembrança muito linda saber que, em algum momento daquele tempo que foi curto demais, se me permite dizer, que você pôde passar com alguém que é muito importante pra você, essa pessoa reconheceu que você se interessava por aquilo e que a música tava te cativando de alguma forma. E quando foi que você começou a descobrir música por conta própria? Qual foi o primeiro disco que você sentia que era realmente seu? Aquele que, quando você chegava na escola ou na casa dos seus amigos, meio que fazia parte de quem você era.
P: Eu passei por várias fases com isso. Mötley Crüe, por exemplo, foi uma das primeiras bandas que eu descobri naquela fase de adolescente revoltada e pensei: “Ah, isso aqui é meu.” Mas ainda rolava um certo distanciamento, porque foi um garoto que me apresentou. Já bandas como Smashing Pumpkins e Nirvana eu sentia que podia chamar mais de “minhas”, porque fui eu mesma que descobri, pesquisando por conta própria. E também teve algumas músicas... Eu descobri uma música do Manchester Orchestra, uma das mais conhecidas deles, “I Can Feel a Hot One”, quando eu tinha uns 14 anos. Lembro que aquela música mexeu profundamente comigo. Eu ouvia até na hora de dormir. E essa banda continuou sendo uma das minhas favoritas, provavelmente entre as três que eu mais gosto, por muito tempo. Agora, aqueles álbuns que eu ouvi e pensei: “É isso. É exatamente isso”...Foram alguns discos do Radiohead e do Bright Eyes. Esses foram os que mais tiveram esse efeito. Mas eu só fui conhecê-los um pouco mais tarde.
E: É que, depois que o Thom te pega... É muito difícil...Eu tenho alguns momentos assim com Radiohead. Tem músicas que eu simplesmente não consigo colocar pra tocar se não estiver preparado pra entrar naquele estado.
P: Exatamente.
E: “Daydreaming” é uma delas.
P: Aham.
E: “Videotape” também. Sabe aquelas músicas em que o Thom simplesmente...
P: Eu estava ouvindo “Videotape” no carro vindo pra cá.
E: Nossa. Que música desgraçada.
P: Eu demorei um pouco mais pra chegar nesse álbum.
E: Todo mundo demorou. Mas, nossa...
P: E aí, quando finalmente bate...
E: Sempre acontece. [risos] Sempre acontece. Você consegue imaginar como deve ser ser uma música do Radiohead? Se a gente pudesse dar uma existência física a uma música — porque eu realmente acredito que, no fim das contas, as músicas têm uma existência própria — imagina a vida que elas levam. Elas estão por aí, encontrando pessoas o tempo todo, vivendo milhões de vidas ao mesmo tempo, criando e compartilhando conexões. Agora imagina ser uma música do Radiohead e ficar ali, pacientemente, esperando o resto do mundo finalmente chegar até você.
P: É tipo... imagino que seja uma versão bem mais condensada da vida do Van Gog. Se eu tivesse que...
E: Sim.
P: ...dar uma representação visual pra isso.
E: É. O Van Gogh devia estar tipo: “Nossa, gente... vamos lá. Qualquer hora dessas, por favor. Por favor.” Totalmente. [risos] Totalmente. E é engraçado, mas também existe tanta catarse e tanta alegria nessa música quando você consegue atravessar toda aquela tristeza. E acho que isso leva a gente até essas duas músicas, porque a música sempre acaba mostrando o caminho pra mim — e pra gente. Você lançou recentemente um trabalho que é quase um retrato muito bonito de tudo o que você viveu e de onde você estava naquele momento da sua vida. Mas você não perdeu tempo. Você tem essas duas músicas, as suas músicas mais pessoais até hoje, eu acho. Pelo menos de uma certa fase da sua vida.
P: Ah, sim. Com certeza.
E: Eu queria começar a conversa te perguntando uma coisa: por que você decidiu lançar essas duas músicas agora? Antes mesmo de a gente falar sobre o que elas significam pra você e entrar no processo criativo por trás delas... por que esse dia é tão importante? E por que justamente essas duas músicas? E pode levar o tempo que precisar pra responder, porque essa é uma pergunta e tanto.
P: É. Não, é mesmo. E tem muitas camadas. Eu fico pensando: “Como é que eu vou resumir isso?”
E: Bom, a gente pode descobrir isso juntos.
P: É. Então, The Breeze eu escrevi provavelmente em 2021 e gravei uma versão dela com o Andy Hull e o Robert McDowell, do Manchester Orchestra. Eles fizeram meu primeiro disco comigo e a gente... a gente fez um monte de músicas juntos que a gente acabou não lançando. E aí, no começo desse ano, eu escrevi a outra. E as duas combinam muito bem porque, no fundo, as duas são meio que um: “Ei, vamos conversar.” E eu não sentia que dava pra lançar uma sem a outra.
E: Aham.
P: Quanto ao dia que escolhi pra lançar... a capa do meu álbum é meio irônica. Eu gosto muito dessas coisas meio irônicas. E essa questão do aniversário também tem um pouco disso, porque...A segunda música fala sobre relações parassociais e sobre essa ideia de... depois a gente pode entrar mais na letra, mas...Essa ideia de um pacto de sangue unilateral.
E: Um pacto que alguém fez com você sem você sequer ter concordado com aquilo.
P: Todo ano, no aniversário do meu pai ou em qualquer data assim, se eu não posto alguma coisa no Instagram, nas redes sociais. Significa que você odeia ele. Que guarda ressentimento. Que não ama ele.E existem duas realidades. Existe a realidade de ter conhecido ele pessoalmente e de ter crescido na mesma casa que ele. E existe a realidade de nunca ter conhecido ele e não saber como era a dinâmica dentro da nossa família. E a verdade é que a gente não comemorava o aniversário dele. Ele não deixava a gente comemorar. Ele simplesmente não tinha interesse nenhum em comemorar o próprio aniversário.
E: E vocês tentavam.
P: Sim. Quer dizer, ele simplesmente não queria. E... sei lá. Tem uma parte de mim que pensa: “Tá, vocês querem que eu faça alguma coisa no aniversário dele? Então vai se ferrar.” Mas também tem um outro lado disso que… Sei lá. Acho que eu só quero ser sincera. E eu sinto que, de certa forma, ficam insistindo pra que eu me abra um pouco mais. Então eu queria meio que deixar isso respondido de uma vez. Pra não continuar sentindo que preciso me defender na internet ou que preciso ficar explicando as minhas relações pessoais. E isso acontece o tempo todo. Se duas pessoas famosas estão namorando, elas têm que ficar explicando o relacionamento delas, justificando tudo… Eu não tenho interesse nenhum nisso.
E: Sim. A gente já vai ouvir essas músicas. Mas eu queria dizer uma coisa também. Talvez eu esteja viajando, não sei, mas… Pra alguém que nunca gostou de comemorar o próprio aniversário, agora você finalmente teve a chance de comemorar o aniversário dele... [risos]
P: De uma forma que eu gosto de imaginar que faria ele dar risada. Gosto de pensar que ele está lá de cima, olhando pra mim e pensando: “Sua sacana...”
E: Pois é.
P: É. [risos]
E: Podemos ouvir “The Breeze”?
P: Sim.
E: [...] A composição é incrível. É um trabalho muito sincero.
P: Obrigada.
E: Tem muita coisa pra gente conversar sobre essa música, até porque você teve a sinceridade e a coragem de compartilhar tudo isso. E eu queria começar pelo final. Vamos falar daquele áudio. O que você gostaria de contar sobre ele? Eu poderia te fazer perguntas específicas sobre onde foi, há quanto tempo você tem isso, onde tava e tudo mais, mas é uma coisa sua. Você entregou isso pra todo mundo ouvir agora. É... é provavelmente o momento mais íntimo que alguém vai ouvir do seu pai conversando com você, mesmo que só por aquele tempinho. Então, vamos falar um pouco sobre isso e por que você escolheu colocar esse trecho na música.
P: Sim. Aquilo foi tirado de um vídeo caseiro, gravado com uma camerazinha que era do meu irmão mais velho. Eles se revezavam filmando tudo. E, naquele momento, ele estava com a câmera. Há alguns anos, meu irmão veio me visitar e começou a me mostrar um monte dessas gravações que ele tinha. Eram horas e horas de vídeo. E essa era uma delas. Eu e meu irmão mais velho estávamos sentados na cama, assistindo TV. Meu pai chega, e eu estou completamente no meu mundinho, vidrada na televisão. A gente quase nunca podia assistir TV. Provavelmente era um fim de semana em que tinham deixado a gente assistir por uma ou duas horas. Então eu estava completamente vidrada. Devia estar passando algum desenho, provavelmente Transformers ou alguma coisa assim. E aí ele fica: “Eu te amo, Paris. Eu te amo, Paris.” Eu olho pra ele e digo: “Eu te amo.” [risos] E imediatamente volto a assistir ao desenho. E, claro, hoje eu penso: “Garotinha tonta... esse era um momento tão especial e você estava completamente distraída com a TV.” Mas acho que, quando a gente é criança, acaba não dando o devido valor a certas coisas.
E: Mas é difícil dar o devido valor quando você não faz ideia do que está por vir. Nessa idade, tudo o que você pode fazer é viver aquele momento. E o fato de você ter sequer parado, percebido aquilo e correspondido ao carinho dele... isso já é muito especial.
P: É…
E: sabe, tem uma voz, tem uma transição da sua voz como uma adulta madura, alguém que tá descobrindo quem é e quem quer ser pro resto da vida. Aí muda pra uma voz infantil, lá pros dois terços da música.
P: Sim.
E: Quem é ela? E qual é o significado disso?
P: Bom, primeiro de tudo, eu tento não me culpar tanto por aquele momento, porque, na maior parte do tempo, quando meus irmãos saíam correndo pra brincar, eu queria passar todo o meu tempo com o meu pai. E acho que sempre existiu uma parte de mim que era completamente encantada por ele, que nunca se cansava de estar perto dele. Então eu tenho muitas outras lembranças assim, que acabam equilibrando um pouco as coisas. Mas eu chamei minha afilhada, Isabella, pra cantar. A gente estava no estúdio, e isso nem fazia parte do plano. Originalmente, eu tinha gravado essas músicas com o Andy e o Rob. E aí, quando escrevi a outra, pensei: “Tá, a gente precisa voltar pro estúdio. Tem que deixar tudo coeso. Então é melhor fazer tudo no mesmo estúdio, com o mesmo engenheiro de som, pra que as duas realmente combinem.” E, quando a gente já estava terminando a música, eu estava sentada no sofá. Minha melhor amiga tinha passado por lá um pouco — foi ela, inclusive, que fotografou a capa do meu álbum.
E: Aham.
P: Eu estava ali sentada e, de repente, me veio uma coisinha na cabeça, uma espécie de estalo. E eu não sei se veio de...
E: Um sinal?
P: Eu não sei se veio do universo, de Deus, do meu pai, do meu eu superior ou de qualquer uma dessas coisas mais espirituais... porque eu acredito em praticamente todas elas. [risos] Mas alguma coisa me dizia: Isabella.
E: Aham.
P: E eu fiquei sentada ali por um instante pensando: “Ah, não. Tá em cima da hora demais. Só temos mais algumas horas no estúdio. Não sei...” Fiquei uns dois minutos debatendo isso comigo mesma. Aí pensei: “Quer saber? Dane-se.” Levantei, saí do estúdio e liguei pra mãe dela. Ela não atendeu. Liguei pro padrasto, e ele falou: “Oi, o que foi?” Eu perguntei: “Onde a Isabella está agora?” E ele: “Ah, ela está com o pai.” Eu falei: “Beleza.” Desliguei. [risos] Liguei pro pai dela e perguntei: “O que vocês estão fazendo agora?” E ele falou: “Estamos sentados no sofá vendo TV.” Eu perguntei: “Vocês conseguem chegar em Eagle Rock nas próximas duas horas?” E ele: “Bom, a gente está em Redondo Beach, mas acho que dá pra chegar aí em uma hora e meia.” Eu falei: “Perfeito.” E ela chega e simplesmente grava esses vocais perfeitos. No começo, acho que a ideia era ela participar só da segunda música, fazendo alguns vocais de fundo. Mas, enquanto eles estavam vindo pro estúdio, eu pensei: “Ela precisa cantar comigo.” A gente gravou a voz dela, e ficou tão lindo…eu tava chorando no estúdio. O pai dela tava chorando no estúdio. Ela começou a chorar no estúdio. Foi uma experiência muito linda e... ela tem a mesma idade que eu tinha quando o meu pai morreu. Ela tem 11 anos. Então teve umas sincronicidades meio doidas rolando, e tudo pareceu muito, tipo [suspira] obra do divino, sabe... se você acredita nisso. E a gente tem algumas imagens nossas no estúdio. Eu estou abraçando ela, chorando… E, durante o processo de escolher e montar as melhores partes dos vocais, a gente ficava ouvindo tudo de novo. E ela cantava comigo o tempo todo naquela última parte. E eu fiquei pensando nisso até dizer: “Vamos tirar a minha voz. Vamos fazer as duas vozes se misturarem aos poucos, até a minha desaparecer completamente.” E aí a minha voz volta bem no final. E acabou ficando perfeito.
E: Sim. É um daqueles momentos em que você presta atenção na letra e realmente escuta o que está sendo dito… Porque a vida é cheia de coisas que nunca chegam a ter uma resposta.
P: Aham.
E: E existe toda essa fragilidade também, né? Essa ideia de que a experiência da vida é passageira. Se você tiver sorte, vive uma vida longa e saudável, tem tempo suficiente pra ir atrás das suas curiosidades, viver bastante coisa e, no fim, sentir que conseguiu aproveitar bem o tempo que teve. Isso é uma bênção. Mas nem sempre acontece assim. E você sabe disso melhor do que ninguém. Sem que você tivesse responsabilidade nenhuma sobre isso, sua vida acabou seguindo caminhos completamente diferentes, com todo tipo de reviravolta inesperada. E tenho a impressão de que você está falando um pouco disso na letra. Como se tivesse chegado a uma certa aceitação de que as coisas são finitas.
P: Aham.
E: Da ideia de que nada dura pra sempre. Mas, ao mesmo tempo, existe uma parte sua que quer acreditar que, de alguma forma, a energia continua existindo... ou que o espírito continua existindo. É mais ou menos isso?
P: Acho que o que realmente despertou em mim a vontade de escrever essa música foi um poema muito bonito que o Andy me mostrou. Acho que se chama “Autumn Leaves” ou “Gold Leaves”. Basicamente, é sobre uma pessoa que passa a vida inteira procurando por Deus… Só pra descobrir, no fim da vida, que Ele esteve ali o tempo todo. E o poema fala sobre “as milhões de máscaras de Deus”. Inclusive, depois o Andy acabou dando a um dos discos do Manchester Orchestra o nome “The Million Masks of God” por causa desse poema. E eu achei aquele poema muito, muito bonito. Ele me fez começar a pensar na minha própria espiritualidade, na minha própria conexão consciente com um poder maior. E aquilo meio que deu início a essa jornada espiritual de entender que existe algo maior em tudo. Que tudo acontece na hora certa. Que tudo acontece por algum motivo. E eu também acredito em energia. Acredito que, quando acaba... não acaba de verdade.
E: Sim. Já tive momentos na minha vida em que pessoas que eu amava muito partiram... E você sente a presença delas.
P: Você sente. Também já perdi amigos por causa da dependência, perdi outros familiares… E... sei lá. Tenho certeza de que a ciência poderia explicar isso dizendo que nós, seres humanos, somos programados pra procurar padrões nas coisas e tudo mais. Mas eu já passei por algumas experiências que, pra mim, são muito difíceis de explicar. E eu acredito no que acredito. Acho que essa energia continua ali. Quando vejo uma borboleta, falo: “Oi, pai.” São essas coisinhas, sabe?
E: Eu concordo. E acho também que essas coisas acabam se manifestando de uma forma que fala diretamente com cada um de nós. A gente vive tentando encontrar coisas em comum uns com os outros de todas as formas possíveis. Tentamos encaixar nossas crenças nas crenças dos outros, encaixar as crenças dos outros nas nossas e por aí vai. Mas, pra mim, quase todas as vezes em que algo assim aconteceu, foi através do ritmo, da magia e da matemática da música. Eu perdi alguém muito importante pra mim e, de repente, alguma coisa aconteceu… E eu pensei: “Essa música apareceu exatamente naquele momento, junto com aquilo, com aquele pássaro...” E aí é tipo: “Nossa. Tá, eu estou percebendo. Estou aberto. Entendi. Obrigado.”
P: Sim.
E: É real.
P: É. Se a gente estiver aberto pra perceber.
E: Se a gente estiver aberto. E as gaitas de fole no final?
P: Sim! Isso foi muito legal.
E: Aliás, precisamos fazer justiça às gaitas de fole nas músicas pop. Por favor. Podemos?
P: Sim. [risos]
E: Porque a gaita de fole parece condenada a sempre… ser associada àquele som de alguém que não sabe tocar. Mas, quando é bem tocada — e aqui foi lindamente tocada...
P: Aham.
E: ...ela traz uma carga emocional muito forte pra música.
P: Então, uma curiosidade muito boa sobre o processo da gaita de fole... [risos]
E: Uma frase que você nunca imaginou que diria numa conversa.
P: Olha, a essa altura, já faz parte da minha vida, sério.
E: Certo. Bem-vindos às curiosidades sobre gaitas de fole.
P: Já falei tanta coisa absurda nessa vida...Então, quando eu estava no estúdio com o Andy e o Rob, lá em 2021, não existe exatamente uma opção de “gaita de fole” num Mellotron, sabe? Simplesmente não tem. Então o que a gente fez? Baixamos um aplicativo de gaita de fole no meu celular.
E: Peraí, dá pra baixar uma gaita de fole?
P: E tem vários aplicativos, inclusive. A gente encontrou o certo e sampleou o som. [risos] Usamos o sample pra tocar as notas que a gente precisava. E aí, quando eu estava regravando essa música, meu amigo Jeff, que é empresário do Dropkick Murphys, falou: “Ah, eu conheço um cara que toca gaita de fole.” [risos] Então fomos atrás do cara dele.
E: Tem que ir pra Boston arrumar o seu cara da gaita de fole.
P: Literalmente! O Campbell estava mesmo em Boston. A gente mandou a música pra ele, e ele falou: “Sim, consigo gravar e mandar os canais separados pra vocês neste fim de semana. Estou prestes a sair em turnê de novo, então agora é a hora perfeita.” De novo, o timing foi perfeito. Timing divino. Só que aí ele falou: “Tem um probleminha. A minha gaita de fole não toca no tom da sua música, que, se não me engano, é Sol.” E ele disse: “Vocês vão ter que afinar a gaita de fole com Auto-Tune.” Então... eu nem sei se existem gaitas de fole feitas nesse tom. Não sei nem se essa música vai poder ser tocada ao vivo algum dia. Enfim, ele estava em Boston, gravou tudo, afinou com Auto-Tune e mandou pra gente. E aí a gente ficou: “Pronto, temos a música.” A única coisa que faltava era colocar aquele áudio bem no final.
E: E talvez seja a única vez que esse solo específico de gaita de fole — vamos chamar de “solo”, na falta de um termo mais técnico...
P: Um solozão de gaita de fole.
E: ...exista nesse tom.
P: É.
E: Só que você se ferrou, porque agora nunca vai conseguir tocar isso ao vivo.
P: Mas eu tenho certeza... eu não manjo da mecânica de uma gaita de fole, mas com certeza, do mesmo jeito que dá pra fazer harmonias em tons diferentes... tipo, tem que dar um jeito. Provavelmente teria que ser um par de gaitas de fole bem customizado e caro, mas acho que dá.
E: Em Burbank deve ter alguém. Atrás de alguma porta sem placa nenhuma em Burbank deve ter alguém capaz de fazer isso pra você, Paris.
P: Com certeza. Num estacionamento do lado de uma borracharia ou alguma coisa assim.
E: Bendita seja essa gaita de fole. Mas por que você quis colocar uma gaita de fole na música?
P: Por alguns motivos. O principal, pensando como produtora e compositora, é que o som dela transmite muito bem essa sensação de saudade, de ausência e de luto que eu queria passar com a música. E também porque algumas das minhas melhores lembranças de infância são de quando eu estava na Irlanda com meus irmãos e meu pai. Eu nem lembro quanto tempo a gente ficou lá. Eu devia ter uns oito anos.E a gente sempre ia nessas pequenas aventuras, a gente andava por um bosque, tipo, era perto de uma casinha de campo, e a gente andava por esse bosque meio misterioso que tinha cogumelos gigantes, samambaias e tudo úmido de orvalho. Era uma parte tão mágica da minha infância, a gente simplesmente saía explorando. E algumas dessas aventuras envolviam ficar fuçando pela casa. Uma vez subimos até o sótão e encontramos uma caixa vintage super bonita com uma gaita de fole antiga dentro. E lá foi o lugar que eu mais gostei de morar quando era criança. Tenho algumas das minhas melhores lembranças de lá. A gente também brincava... nem sei se ainda fabricam aqueles Legos de vikings, mas eu e meus irmãos ficávamos brincando com eles. Aliás, a melhor coleção que a Lego já fez. [risos] São lembranças muito, muito boas e por isso eu queria conseguir colocar isso na música. Hum... Meus irmãos já ouviram.
E: Eles gostaram?
P: Recebi a aprovação. Consegui a aprovação, o que foi muito legal e...
E: Imagino que pra eles também seja especial ouvir você pegar lembranças tão boas… Porque são momentos dos quais você tem boas lembranças, e eles também. E tem aquele áudio, que poderia muito bem ter continuado sendo uma coisa só sua, particular. Mas ele é uma forma muito bonita de encerrar toda essa jornada. Porque a música realmente é uma jornada. Ela começa em quem você é hoje e vai quase refazendo o caminho da sua vida, enquanto você tenta se curar ao longo desse processo. E ainda teve a sua afilhada entrando ali e fazendo parte disso tudo. Então imagino que, pros seus irmãos, também deva ser bastante catártico perceber que você consegue voltar a essas lembranças e, de certa forma, dar vida a elas de novo. Porque as lembranças, quando ficam guardadas dentro da gente por muito tempo... quando você não sabe pra quem contar, em quem confiar ou onde compartilhar aquilo… Elas podem acabar pesando na gente.
P: Sim. Eu vi uma entrevista recentemente em que o Conor estava falando... não lembro se era pro New York Times ou alguma coisa assim. Foi bem recente. E ele sempre teve esse lado ativista, sempre tentou dar voz às pessoas, de uma forma muito particular, dentro de uma comunidade específica. E eu adoro fazer parte dessa comunidade musical. Perguntaram pra ele por que ele não escreve sobre algumas coisas específicas que estão acontecendo na política. E eu adorei a resposta. Vou acabar falando errado, então nem vou tentar citar exatamente o que ele disse, porque sei que não vou lembrar palavra por palavra. Mas era mais ou menos…O que eu tirei da resposta foi que existe tanta coisa acontecendo que é difícil colocar tudo dentro de uma música. Porque uma música é curta. É difícil dizer tudo o que você gostaria de dizer. E, mesmo com essas duas músicas, eu tenho muito orgulho desse single duplo. Tenho muito orgulho de estar começando a encontrar a minha própria voz como produtora e também como compositora. E também de chegar num ponto em que penso: “Foda-se as regras.” Não precisa ter refrão. Não precisa ter ponte. A primeira música vai ser uma carta, meio falada.e a segunda vai ser uns versos com refrão e um instrumental esquisito no final, tipo, eu não tô nem aí. Então, isso foi muito legal, mas de forma alguma parece uma mensagem definitiva do tipo: "bom, é só isso que eu tenho a dizer sobre o assunto". É tipo, eu provavelmente vou guardar o resto pra mim por enquanto. Hum, mas não quer dizer que... não tô dizendo que é só isso, sabe? Isso é...
E: É o que isso significa pra você.
P: É.
E: É o que isso significa pra você. E ela realmente não tem um refrão convencional. Mas, nossa... mais ou menos na metade, acontece uma mudança de dinâmica. Você passa mais uma vez pela progressão antes daquela mudança pra entrada da outra voz, e isso foi feito com muito cuidado. Em termos de arranjo, é muito difícil conseguir fazer isso: manter a gente nessa subida bem suave e gradual.
P: É porque eu não toquei com metrônomo. Não tinha metrônomo. Eu estava tocando no violão, sem palheta. Só com o polegar. A ideia era começar bem baixinho e ir crescendo aos poucos. Porque eu já sabia que, vocalmente, queria começar a cantar com cada vez mais força, tentando colocar mais emoção na interpretação.
E: Quantas vezes você gravou o vocal? Você lembra?
P: Acho que umas três vezes.
E: Não deve ter sido muito mais do que isso, né? Porque, senão, começa a ficar muito ensaiado. A gente começa a limpar demais, lapidar demais...
P: É. E isso não me interessa muito. Eu vi algumas reações à apresentação que fiz no Good Morning America, quando alcancei uma nota mais alta em “Zombies and Love”. E tinha gente comentando se eu canto bem ou não. Sinceramente, eu nem acho que seja uma grande cantora. Porque, se eu fosse, provavelmente faria aula de canto algumas vezes por semana e teria colocado algum melisma naquele trecho da música, porque é o tipo de coisa que as grandes cantoras fazem. É o tipo de coisa que a Ariana, a Mariah ou a Whitney fariam. Elas são esse tipo de cantora. Eu não estou tentando ser “a cantora”. Quero acertar as notas, claro. Mas, quando se trata do timbre, eu gosto de vozes mais ásperas. Gosto do Tom Waits. Gosto do Conor. Eu gosto dessa coisa mais crua, mais áspera. Até as minhas músicas favoritas do Damien Rice são aquelas em que a voz dele falha, porque aquilo soa sincero. Soa verdadeiro, cru.
E: E você precisa colocar os fones pra ouvir isso.
P: Preciso?
E: Precisa. Você está com eles aí? Coloca. Vem comigo pro universo da música nessa aqui.
P: Nossa... sua voz está literalmente dentro da minha cabeça.
E: Pois é. Aqui estou eu.
(Escutam "Just me and You")
E: Quem é esse “você”?
P: Esse “você”?
E: Em “eu e você”.
P: É o meu pai também. Sim. As duas músicas são pro meu pai. E tem toda essa ideia de que o refrão foi feito pra soar como uma canção de ninar. Ele foi pensado pra se abrir, porque é justamente no refrão que eu falo sobre como essa relação pode ser bonita quando todo o barulho em volta desaparece. É nesse espaço que eu realmente consigo aproveitar essa relação.
E: Aham.
P: Já quando a gente entra nos versos, entra também todo aquele barulho: as relações parassociais, as expectativas… E aí fica aquela sensação estranha, sombria, desconfortável. É quase como ficar socando uma parede de concreto até machucar as mãos. É uma coisa muito...
E: Sim. Quando foi que você percebeu — se conseguir lembrar — que, de um jeito ou de outro, teria que aprender a lidar com tudo isso? Que teria que descobrir como viver a sua vida nesse mundo e chegar a um ponto em que ela fosse realmente sua? Porque a maioria de nós passa por esse processo sem todo esse barulho, sem essa dinâmica parassocial. E hoje isso é tão intenso, porque vivemos num mundo em que todo mundo está tão acessível. Você está acessível pra gente. A gente está acessível pra você. É tudo muito disponível, né?
P: Acho que é um exercício constante de aceitação.
E: Sim.
P: Eu tenho plena consciência de que estou falando de uma parcela específica das pessoas. Porque eu não estou falando de...
E: Sim, sim, claro.
P: ...todos os fãs do meu pai. Isso seria absurdo. Mas existe uma parcela que leva isso longe demais. E eu sei perfeitamente que essas pessoas não vão entender essa música.
E: Sim.
P: E tudo bem. Eu sei que ela não vai satisfazer algumas pessoas, e tudo bem. Sei que provavelmente vai incomodar outras, e tudo bem também. Cada pessoa tem direito à própria experiência. Cada pessoa tem direito à sua própria realidade, até certo ponto. Pra mim, o limite é quando isso começa a causar mal a alguém. É aí que eu traço a linha em relação ao tipo de realidade em que eu quero viver. Mas, no fim, é isso: um exercício constante de aceitar e entender que, se eu for pra esquerda, vão acabar comigo. Se eu for pra direita... [risos] Vão acabar comigo também.
E: Então parece até meio surreal.
P: Pois é. Então é melhor eu simplesmente ser sincera e ser eu mesma. E... sei lá. Essa é só a minha experiência sincera, expressada através da música.
E: Eu acho incrível você ter chegado a esse ponto. Porque eu estou olhando aqui pra capa, e é uma foto sua vivendo uma experiência que, no fundo, poderia ser a de qualquer criança. Quer dizer, se a gente tiver a sorte de ter pais que guardaram essas coisas, todo mundo acaba tendo alguma foto parecida perdida numa caixa… Essa é uma foto clássica...
P: Central Park, 1999.
E: É aquela foto clássica de criança, sabe? Passando o dia no parque, descobrindo como é estar perto de outras crianças… E provavelmente dando um tempinho de descanso pra quem estava com você, porque você estava muito feliz ali, fazendo as suas coisas. Sabe o que eu quero dizer? É uma cena muito normal. Quando você olha pra essa foto, o que você vê? E por que decidiu usar justamente essa imagem pra representar essas músicas?
P: Eu tenho muitas fotos. E sou muito grata por ter uma quantidade boa de fotos da minha infância que estão facilmente acessíveis. Tenho amigos que não têm foto nenhuma da infância.
E: E isso também diz muita coisa.
P: É. Então me sinto muito, muito sortuda por ter esse acervo de fotos. E essa foi escolhida por alguns motivos. Tem toda a atmosfera da foto, aquela nostalgia… Meu último disco teve muita influência dos anos 90, e essa é uma foto que eu já queria usar em algum projeto musical há bastante tempo. E também tem o lado mais prático: eu preciso saber quem tirou a foto, porque essa pessoa precisa autorizar o uso. E quem tirou foi a Kathy Hilton.
E: O que você reconhece naquela criança?
P: Tanta emoção. Tanta emoção.
E: Olha os olhos.
P: É. Isso sempre foi muito presente em mim. Desde aquela idade, eu ficava simplesmente encarando o meu pai. Eu olhava pra ele e ficava olhando. Encarava mesmo. Um encarão. [risos] E, pelo que meus amigos dizem, aparentemente eu ainda faço isso. Eles vivem me falando que eu simplesmente... fico encarando as pessoas. Algumas pessoas não gostam nem um pouco. [risos] Mas enfim...
E: É.Tenho certeza de que muita gente vai se divertir analisando cada pedacinho da letra. Qual é o seu trecho favorito?
P: Nossa… Acho que a parte sobre querer guardar ele só pra mim é a que mais me pega. Porque vai direto ao ponto. É muito explícita no sentido de: “Tá, essa música está aqui, mas deixa eu ter aquilo que é meu.” Deixa eu ter isso pra mim. Não me obriga a fazer uma performance pra vocês. Não me obriga a... Porque essa não é a minha forma de demonstrar amor. Eu não vou criar uma conta de fã, sabe? Só me deixa ter a minha própria forma, particular, de viver isso. Vocês não sabem o que eu faço quando estou em casa. Não sabem se eu acendo uma vela. Não sabem se eu tenho os meus próprios rituais… Existem muitas suposições.
E: Você acha que uma parte disso acontece porque… Talvez você nunca tenha pensado exatamente dessa forma — eu mesmo acabei de pensar nisso agora e pode não ter relevância nenhuma —, mas estou tentando imaginar como é ser fã de alguém num nível tão intenso que você sente a necessidade de procurar uma pessoa que teve uma relação muito, muito mais próxima com aquilo ou com aquela pessoa que você ama. E aí surge um certo ressentimento porque essa pessoa próxima não encontra você nesse mesmo lugar de adoração. Sabe? É como se fosse: “Eu quero chegar o mais perto possível daquilo que eu mais amo. E a pessoa que mais conheceu e amou essa pessoa não quer vir até aqui comigo.“Por quê? Por que você não quer vir venerar essa pessoa do jeito que a gente venera?”
P: Sim.
E: E talvez seja aí que a linha começa a ser ultrapassada. Porque você tem todo o direito de absorver, interpretar e viver aquilo da maneira que quiser.
P: É que a gente simplesmente enxerga as coisas por perspectivas diferentes.
E: É isso.
P: São perspectivas diferentes. E um dos meus exemplos favoritos é uma coisa que vi recentemente. Alguém escreveu algo tipo: “Com quem ela aprendeu a falar palavrão? Porque eu conheço o pai dela e a família dela, e sei que eles não falavam assim.” E é aquela certeza absoluta. Aquela visão completamente fechada de: “Eu sei mais, eu sei que isso é verdade, eu sei que ele não falava palavrão.” Enquanto isso, literalmente uma das minhas lembranças favoritas da infância é de quando a gente estava no meio do nada, em algum lugar da Virgínia. A gente estava hospedado numa espécie de fazenda. Tinha vacas, vaga-lumes… Era realmente no meio do nada. A gente sentava na varanda e ficava vendo as tempestades. Foi mais um lugar muito mágico e especial nas minhas lembranças de infância... Porque existia essa preocupação constante de tornar as coisas mágicas. De manter aquela magia. Como andar pelos bosques na Irlanda contando histórias de fantasmas… Era sempre essa coisa de manter a magia viva. Então imagina a cena. [risos] Você está dormindo na sua cama. Você tá dormindo na sua cama e te acordam no meio da noite, e o seu pai tá em pé na sua cabeça com um lanterna que ele achou sabe-se lá onde. Ele simplesmente aparece com uma lanterna e faz: “Shhhh.” E aí vocês começam a andar escondidos pela propriedade. Tem pedras no caminho, aquele caminho meio torto… Tem uma estrada principal ali perto, mas vocês estão numa propriedade particular. Ou seja, vocês não estão fazendo nada de errado.
E: Sim, sim.
P: Aí passa um carro pela estrada. Por algum motivo, meu pai se assusta como se a gente estivesse fazendo alguma coisa errada e sai correndo. De repente, a gente ouve um estrondo enorme. A lanterna sai voando no meio da escuridão. E aí você só ouve: "Merda, me dei mal pra caralho". [risos]
E: Desse jeito?
P: Desse jeito. Agora, olha… Quando eu era criança, eu não podia falar palavrão. De jeito nenhum. Tinha palavras que a gente precisava substituir por versões mais inocentes. Quando eu era criança, eu não podia falar certas coisas. Tipo, em vez de falar “bunda”, a gente tinha que falar “bumbum”. Em vez de falar “cala a boca”, tinha que falar “fica quieto”. Era importante que a gente não falasse palavrão. Mas aí aparece uma pessoa na internet, que nunca nem me conheceu, perguntando: “De onde ela aprendeu essa palavra?” E eu fico: “Olha... isso sempre esteve por aí.” [risos] Sempre esteve. E eu também tento prestar atenção nisso quando estou no palco. Porque eu falo palavrão nos shows. Falo mesmo. A gente faz piada, tem algumas brincadeiras... eu simplesmente vou falando o que vier. E às vezes penso: “Ah, tem uma criança na plateia. Talvez eu não devesse falar palavrão perto dela.” Mas aí também penso: “Essa criança provavelmente já ouviu isso em algum lugar.” Seja dos pais, seja em outro show de rock que os pais levaram ela… Enfim.
E: É um show de rock e você é uma adulta.
P: É. Quando vejo algumas coisas…Tipo, encontrei uma das minhas tias alguns meses atrás. Eu estava em Londres e perguntei pra ela porque ela também já passou por um nível absurdo de julgamento público. Perguntei: “Como você lida com isso?” E ela falou: “Eu simplesmente não olho.” E eu pensei: “Eu preciso fazer isso. Preciso simplesmente parar de olhar.” Porque, quando eu olho e vejo essas coisas, pessoas dizendo: “De onde ela tirou isso? Eu sei com certeza que aconteceu isso, isso e aquilo...” E aquela pessoa está vivendo numa realidade completamente diferente da minha… Eu preciso me lembrar de que tudo bem. Ela pode ter a realidade dela. E eu também posso ter a minha. E eu não sou obrigada a ficar me defendendo. Mas, ao mesmo tempo, se elas têm o direito de fazer isso, eu também tenho o direito de escrever sobre a minha experiência.
E: Era exatamente isso que eu ia dizer.
P: E transformar isso em arte.
E: Você tem a sua arte.
P: É disso que fala aquele trecho sobre o vidro. É essa ideia dos celulares. A gente passa o dia inteiro esfregando o dedo, quase sem pensar, num pedaço de vidro. E a imagem da música é que, se alguém se machucasse nesse vidro, usaria até aquilo pra criar uma espécie de pacto unilateral. Essa é a ideia da internet ali. Essa relação totalmente de um lado só, essa relação parassocial.
E: E também essa tentativa de espelhar o amor, sendo que nunca foi realmente a mesma coisa.
P: Sim. Porque houve uma época da minha vida em que eu realmente tentei reproduzir aquela forma de demonstrar amor. A forma de amor demonstrada por alguém que não tinha uma relação pessoal com ele. E acho que parte disso vinha de eu não saber como lidar com o luto. Eu não sabia como viver aquilo da minha própria maneira. E também devia existir uma parte de mim — quando eu tinha 13, 14 anos — desesperada pra agradar os outros. Porque tentar agradar todo mundo foi uma parte enorme da minha vida durante muito tempo.
E: Isso tem a ver com o medo de ser abandonada.
P: Tem. E acho que uma coisa que me ajudou muito a começar a deixar essa necessidade de agradar os outros de lado foi perceber que, no fundo, ela pode ser desonesta e manipuladora.
E: Sim! Meu Deus. É muito louco quando você percebe isso. Quando eu tive essa percepção, precisei de uns dez minutos só pra processar. Porque é quase como enganar as pessoas.
P: Sim. Você está manipulando. Você não está sendo quem realmente é. Não está sendo sincero. Está mentindo.
E: Sim, sim.
P: Pra conseguir alguma coisa da outra pessoa.
E: Exatamente.
P: E eu não quero ser uma pessoa desonesta. Não quero ser manipuladora. Já fiz todo tipo de coisa numa época em que eu ainda usava drogas e ficava chapada. Agora estou tentando viver sóbria. Então por que eu continuaria repetindo esse mesmo tipo de comportamento? E outra coisa que eu preciso lembrar o tempo inteiro é: Você nunca vai conseguir agradar todo mundo. E, no fim das contas, as opiniões que realmente importam pra mim são as dos meus amigos, dos meus colegas...
E: E da sua banda.
P: E a verdade é que eu já alcancei um tipo de sucesso nesse sentido. Porque existem pessoas que eu admiro muito… Alguns artistas eu posso citar. Outros eu prefiro não citar porque não tenho uma amizade pública com eles. Mas Kevin Devine e Andy Hull são ótimos exemplos. São compositores que eu admiro muito. Eu mando minhas músicas pra eles e eles adoram. Eles me mandam as músicas deles e eu adoro. E também existem outros artistas que eu considero verdadeiros ídolos e que gostam muito do que estou fazendo — e já me disseram isso. E aí eu penso: “É isso.” Eu faço parte desse grupo junto com pessoas que eu amo, pessoas que eu respeito. E eu não estou tentando fazer uma música que seja super fácil de agradar todo mundo. Não estou tentando fazer um grande hit pop. E não tem absolutamente nada de errado em fazer isso. Só não é o que me alimenta artisticamente. Então, se as pessoas que fazem as coisas estranhas que eu adoro também gostam das coisas estranhas que eu faço… Eu posso morrer feliz. Pra mim, já está ótimo. Sabe?
E: A questão das letras, Paris, é que você sabe o que elas significam pra você. Mas, obviamente, elas ficam abertas à interpretação. E essa é a beleza da coisa. No fim das contas, qualquer grande artista entende que, depois que você lança uma música, ela meio que deixa de ser só sua. Ainda é sua, claro, mas cada pessoa vai pegar aquilo e interpretar do jeito dela, aplicar à própria vida.
P: Sim.
E: E, pela própria natureza de quem você é e de quem essas músicas estão falando, com certeza vai ter gente analisando essas letras nos mínimos detalhes.Tem algum verso, alguma palavra, alguma parte dessa música que você gostaria de esclarecer ou comentar antes que isso aconteça? Porque provavelmente você já sabe como vai ser a reação a essas músicas antes mesmo de...
P: Eu consigo imaginar. Você está com a letra aí na sua frente? Posso tentar adivinhar quais trechos vão chamar atenção.
E: Sim.
P: A gente pode ir seguindo na ordem.
E: “You should really see them all...” É, vai seguindo. Aqui.
P: “You should really see them all going like this. I wonder if you know or want to know the things that you've missed.” Acho que esse é bem...
E: É.
P: “All crowded in the bedlam like some feral kids, suffocating. It's such a trip.” Então, “It's such a trip” fui eu que escrevi. Já “All crowded in the bedlam like some feral kids” foi meu coautor. Ele é muito fã do Tom Waits. E ele também já viu algumas das mensagens completamente insanas que eu recebo, de gente quase espumando de raiva. Eu até comecei a mandar algumas pra ele, tipo: “Olha essa aqui. Essa tem três páginas.”
E: E o que seria esse “bedlam”?
P: Essa frase foi dele. Você teria que perguntar pra ele. Mas “All crowded in the bedlam like some feral kids” me pegou muito. Teve alguns outros versos que ele escreveu também. “like playing bloody knuckles with a concretе wall” também foi dele. Ele tinha escrito isso pra outra música e acabou me dando o verso pra usar nessa. E eu sou muito grata por isso. Mas, enfim... “suffocating “. E eu gostei muito de “It's such a trip”, porque toda essa experiência é muito surreal. O quanto algumas pessoas na internet conseguem ficar revoltadas por uma coisa tão simples quanto: “Essa pessoa não comemorava aniversário, então eu não vou fazer uma homenagem pública no Instagram. Vou encontrar a minha própria forma, particular, de homenageá-la.” E aí alguém pega isso, cria uma realidade completamente própria em cima da situação — tipo: “Então ela deve odiar essa pessoa.” E fica furiosa. Chega a parecer aquela coisa de alguém espumando de raiva. É um pouco...
E: Sim.
P: Parece coisa de bicho selvagem .Parece “feral”.
E: Justo.
P: Não estou falando de todo mundo. Mas existe uma parcela considerável. Nem é a maioria, mas é uma parcela considerável. A parte da pessoa se machucar no vidro do celular eu já expliquei. [suspira] E “ate you alive”... Acho que esse pode ficar aberto à interpretação. Não me importo muito com a forma como as pessoas vão interpretar. Pra mim, fala por si só. [suspira] E “Anything that's real will leave them outraged and appalled”... Acho que esse também fala bastante por si só. No sentido de que eu estou tentando viver uma vida sincera. Estou tentando viver de forma autêntica. E autenticidade e humor são partes muito importantes do que eu tento levar pros meus shows, pra minha presença na internet e pra forma como trato as pessoas na vida real. Outro dia mesmo encontrei uma pessoa na rua, em Venice, e imediatamente fiz uma piada. Ou a pessoa entende ou não entende. Às vezes ela vai embora e eu fico pensando: “Bom... isso foi estranho.” Ou simplesmente não tem o mesmo senso de humor que eu. E tudo bem. Mas é algo que eu tento levar comigo sempre que posso. E algumas pessoas não gostam disso. Pra algumas, isso realmente causa indignação, causa espanto.
E: Imagino que o problema maior seja quando elas andam uns 500 metros, olham pra trás e você continua encarando, porque você tem essa mania.
P: Acho que vou começar a fazer isso. Vou ficar assim, encarando sem piscar… Ou talvez fazer um olhinho dar uma tremidinha.
E: A pessoa olha pra trás e você ainda está lá... encarando e dando uma tremidinha no...
P: Obrigada.
E: E eu sei que você normalmente não faz muito esse tipo de coisa. espero que vir aqui, participar desse tipo de conversa, passar um pouco de tempo com as pessoas e se abrir um pouco mais sobre a sua vida também esteja te trazendo alguma coisa boa.
P: Obrigada. É... normalmente eu não faço isso porque as manchetes que saem depois são as coisas mais absurdas. Teve uma vez em que a pergunta era: “Como foi crescer em Neverland?” E eu respondi: “Na verdade, eu não cresci em Neverland.” E aí a manchete que escreveram: “Paris fala sobre sua infância em Neverland.” Tipo...
E: Bom, pelo menos aqui a gente te deu gaitas de fole. E gaitas de fole em Sol. Então espero que vocês aproveitem. Pronto: “Running With Bagpipes in G”, pessoal. De nada.

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